domingo, 1 de abril de 2012

História Chassídica: A Cabalá do Xadrez

História Chassídica: 
A Cabalá do Xadrez


Uma história sobre dois pilotos

 Certo dia num movimentado aeroporto, os passageiros de uma aeronave comercial estão sentados, esperando pela tripulação aparecer para que possam seguir viagem. O piloto e o co-piloto finalmente aparecem na parte de trás do avião, e começam a andar pelo centro do corredor até a cabine. Os dois parecem ser cegos.



O piloto está usando uma bengala branca, colidindo com os passageiros à direita e à esquerda à medida que anda aos tropeços pelo corredor, e o co-piloto está usando um cão-guia. Os dois têm os olhos cobertos com enormes óculos escuros. A princípio os passageiros não reagem, pensando que deve ser uma espécie de pegadinha. Porém, depois de alguns minutos os motores começam a acelerar e a aeronave começa a se mover.

Os passageiros se entreolham com algum desconforto, sussurrando entre eles e olhando em desespero para as comissárias. Então o avião começa a acelerar rapidamente pela pista e as pessoas começam a entrar em pânico. Alguns passageiros rezam, e à medida que o avião chega cada vez mais perto do final da pista, vão ficando cada vez mais histéricos. Finalmente, quando a nave tem menos de 6 metros de pista para percorrer, e está para mergulhar na água, há uma súbita mudança no tom dos gritos, pois todos gritam ao mesmo tempo, e no último instante o avião levanta voo e sobe no ar.

Dentro da cabine, o co-piloto suspira aliviado e volta-se para o piloto: “Sabe, um dia desses os passageiros não vão gritar, e aí então vamos cair direto na água e morrer!”

No Pomar:
O Aleijado Guiando o Cego


O Midrash parece intrigado pela declaração na porção Vayicrá: “Quando um alma (nefesh) peca.” Não “quando uma pessoa peca”, mas sim “quando uma alma peca.” É a alma que peca?

Diz o Midrash: 

Rabi Yishmael ensinou: isso é comparável a um rei que tem um pomar de figos selecionados. Ele nomeia dois vigias: um era aleijado, o outro era cego, confiando a eles seu pomar. Após algum tempo, o aleijado volta-se para o cego e diz: “Vejo frutas tão deliciosas nesta vinha!” E o cego responde: “Então vamos comer.”

“Mas posso andar?”

“Mas posso ver?”

Então o aleijado sobe nas costas do cego, e juntos ele alcançam e comem os frutos, e então voltam às suas posições. 

Após algum tempo, o rei entra no pomar. Pergunta a eles: “Onde estão minhas lindas frutas?”

O cego diz: “Ó rei, eu posso ver? Como posso tê-las comido?” E o aleijado diz: 

“Ó rei, eu posso andar? Como poderia tê-las alcançado?”

O rei era sábio, o que ele fez? Colocou o aleijado sobre as costas do cego e mandou-os caminhar juntos, dizendo: “Foi assim que vocês comeram meus figos.”

Da mesma maneira, no dia futuro de prestação de contas, D'us vai perguntar à alma: “Por que você pecou perante Mim?” E a alma vai responder: “Mestre do universo! Não pequei, foi o corpo! Veja! A partir do momento em que me separei dele, sou como uma ave pura, voando a caminho do céu. Como pequei?” Então D'us dirá ao corpo: “Por que pecaste perante Mim?” E o corpo vai responder: “Mestre do universo! Não pequei, foi a alma! Veja! A partir do momento em que a alma me deixou, estou sem vida como uma pedra largada sobre a terra! Como posso ter pecado perante Ti?”

O que D'us faz? Traz a alma, joga-a no corpo, e castiga os dois, como está escrito: Ele chamará aos céus acima – esta é a alma – e à terra – este é o corpo – para julgar Seu povo.

Quem Precisa da Metáfora?
O Midrash está explicando que o pecado somente é possível através de uma colaboração plena e funcional entre corpo e alma. O corpo pode fazer as coisas, mas é sem direção; a alma dá direção mas é distante e “aleijada” – espiritual e etérea. Juntos, eles podem conseguir as duas metas: podem transgredir juntos, e podem realizar boas ações juntos.

Porém essas perguntas devem ser feitas: O objetivo das alegorias na Torá é esclarecer um conceito que poderia ser difícil. Porém o ponto neste Midrash parece ser direto e simples: o corpo por si só é um corpo; a alma por si mesma “sai para almoçar”. Juntos, eles criam a realidade que chamamos “o ser humano”. Por que a necessidade da elaborada metáfora do cego e do aleijado para explicar o conceito?

A verdade é, no entanto, que essa metáfora nos explica não apenas que corpo e alma precisam um do outro, mas também a própria natureza do corpo e da alma e por que eles precisam tão desesperadamente um do outro.

A Capacidade Para a Revolução 
O corpo é representado pelo cego. Cegado pela realidade material, por si mesmo é alheio à existência de D'us. Apega-se a uma interpretação da existência do tipo “aquilo que você vê é o que você consegue”; é incapaz de ver além da perspectiva temporal; é incapaz de perceber ou identificar a verdade. E o pior tipo de cegueira é aquela de quem pensa que pode ver.

Porém a alma pode ver. Está consciente no íntimo das realidades mais elevadas da vida; não é enganada pela ilusão do materialismo e do consumismo.

Por outro lado, o corpo pode caminhar, enquanto a alma é imóvel. Este é um dos grandes paradoxos da vida. Como a alma pode ver, é considerada “aleijada” e imóvel. Face à dura verdade não há espaço para erros, portanto não há espaço para decisões. Se não há tomada de decisões, se não há desafio ou conflito, então não há crescimento, nenhum movimento real. A alma, por estar tão intensamente consciente da verdade, e por ser tão perfeita, está “parada” em sua órbita. O crescimento depende do catalisador da falha, da imperfeição. 

Somente se você é capaz de cair muito baixo é capaz de subir muito alto.

O corpo, devido à sua cegueira, sabe como caminhar e correr. Nas palavras do Rei Shelomô: “Voltei e vi sob o sol, que a corrida não pertence ao rápido, nem a guerra ao poderoso; nem o sábio tem pão, nem o compreensivo tem riquezas.”

Em sua ignorância, o corpo é susceptível a cair e subir, a lutar e perseverar, a aprender com seus erros e crescer. E ensina à alma os segredos do crescimento. Antes disso, estava no piloto automático, robótico e consistente como os anjos, e portanto estagnado.

A História de Sam Reshevsky
Samuel Herman (Sammy) Reshevsky (1911-1992) foi um famoso prodígio do xadrez e mais tarde um Grande Mestre americano do xadrez. Concorreu no Campeonato Mundial de Xadrez dos anos 1930 até os anos de 1960, chegando ao terceiro lugar no Campeonato Mundial em 1948, em segundo em 1953. Venceu oito vezes o Campeonato Americano de Xadrez.

Aos seis anos de idade, ele jogava com 30 oponentes ao mesmo tempo, movendo-se rapidamente de tabuleiro a tabuleiro e podia repetir todos os 30 jogos depois, movimento por movimento. Era conhecido como “Shmulik der vunder kind” – Shmuel, o menino prodígio. Era descendente de Rabi Yonasan Eibshitz, que descendia do grande cabalista, Rabi Isaac Luria, o Arizal.

Sammy Reshevsky cresceu num lar observante, e no decorrer de sua vida e fama, continuou fiel ao Judaísmo e Torá, recusando a jogar xadrez no Shabat e nas Festas. Ao completar 70 anos e não estando mais no topo de seu jogo, ele perguntou ao Rebe, Rabi Menachem Mendel Schnnerson, se poderia se aposentar. O Rebe aconselhou-o a continuar jogando porque era um “Kidush Hashem” – uma orgulhosa demonstração de um judeu sendo bem-sucedido sem comprometer seus ideais e seus valores espirituais. Reshevsky concordou e pouco depois, viajou à Rússia e incomodou o campeão mundial, Vassuly Smyslov.

Cá entre nós, um detalhe interessante: em 1984, o Rebe enviou Sammy Reshevsky à Califórnia para tentar ajudar seu colega Bobby Fischer a sair de seu famoso isolamento e depressão. 

Morando em Crown Heights nos anos de 1940, Sammy rezava na Sinagoga central Lubavitch no 770 da Eastern Parkway, Brooklyn, NY. Certa vez, numa reunião de Shabat (farbrenguen, em yiddish) em 1948, o Rebe, em reconhecimento à sua presença. explicou o significado espiritual por trás do jogo de xadrez.

O Jogo de Xadrez


Há um rei. Todas as outras peças se movem ao redor dele e sua missão é proteger e servi-lo. D'us é o Rei, tudo o mais foi criado por Ele, recebeu a oportunidade de conectar-se com Sua verdade e de servi-Lo.

A rainha representa a manifestação feminina do divino, conhecido como a “shechiná”, intimamente envolvida com todo aspecto da criação, concedendo vitalidade e substância a toda existência. A rainha é a peça mais praticamente afetiva, com frequência enviada às linhas de fogo, até mesmo colocada em perigo. Da mesma forma, D'us arrisca Sua própria dignidade, por assim dizer, investindo-se em toda criatura e existência, sujeitando-Se às vicissitudes da condição humana. E há ainda os bispos, torres e cavalos. São rápidos, livres, não limitados pelas casas imediatamente ao lado deles; podem “voar” livremente, sem restrições. Esses simbolizam os anjos – em suas três categorias místicas que discutimos nos serviços de prece matinais: serafim, chayos e ofanim, representados pelos bispos, torres e cavalos.

Para que haja livre arbítrio no mundo, há duas equipes, a branca e a preta. Uma representa a Divindade e santidade; a outra representa tudo que é a antítese da Divindade e da santidade. As equipes se engajam em batalhas ferozes. E para que o confronto seja significativo, cada equipe contém, pelo menos na superfície, todas as propriedades contidas na equipe adversária. As duas equipes têm rei, rainha, bispos, torres e cavalos. Finalmente, há os peões. São bastante limitados em seus movimentos, movendo-se apenas uma casa por vez, somente numa única direção, e constantemente são “abatidos”. Mas… quando eles lutam pelo “tabuleiro”, chegando ao seu destino, podem ser promovidos até mesmo ao nível de rainha, algo que o bispo, a torre e o cavalo não podem atingir.

O Peão representa o ser humano vivendo aqui na terra. Nós seres humanos damos passos muito pequenos, e somos bastante limitados em todo aspecto da nossa jornada, e do nosso crescimento. Também cometemos erros constantemente e somos “nocauteados”. Mas quando o homem persevera e supera a angústia e o desespero das próprias falhas e mortalidade, quando lutamos para subjugar as trevas e revelar a presença do “rei” dentro de nossos corpos, nossas próprias psiques e o mundo ao redor – o ser humano supera até mesmo os anjos; o peão é transformado numa rainha! A vida humana se reúne com sua fonte acima, a rainha, a Shechiná, experimentando a mais profunda intimidade com o próprio Rei.

Os bispos, torres e cavalos, embora espiritualmente fortes e angélicos, são previsíveis, e limitados pelo seu papel. Não há espaço para verdadeira promoção, nenhum crescimento substantivo, nenhuma progressão radical. Sim, eles voam em volta, mas somente dentro da própria órbita. Os anjos no alto, bem como a alma sozinha no alto, antes de entrar no corpo, são poderosos porém confinados pelo próprio status espiritual. São as limitações da pessoa humana que estimulam seu crescimento mais profundo. Os limites da nossa existência criam fricção, fazendo-nos lutar contra as provações e desapontamentos da vida.

Abraçando o Casamento Difícil


Portanto corpo e alma podem escolher aceitar sua esquizofrenia natural como uma vítima, com cada qual culpando o outro pelos seus erros, fugindo à responsabilidade e ao dever. Ou podem escolher abraçar os desafios e oportunidades que este conflito existencial traz, levando a vista, clareza e visão da alma e atrelando-o à mobilidade e energia do corpo.

Essa, então, é a mensagem por trás da metáfora do midrash do aleijado e do cego vigiando o pomar do rei. Quando a alma aleijada lidera o corpo cego, o corpo cego pode elevar a alma aleijada a alturas inimagináveis.

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